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Cordões incas funcionavam como arquivos contábeis

Por Maggie Fox

WASHINGTON (Reuters) – Os curiosos cordões incas cheios de nós, chamados quipos, eram provavelmente usados por chefes e contadores para fiscalizar impostos, e transmitiam tanto informações numéricas quanto textuais, disseram dois especialistas na quinta-feira.

Os cordões coloridos vêm confundindo os pesquisadores desde sua primeira descrição, pelos conquistadores espanhóis, há 500 anos. A maioria dos especialistas concorda que eles são algum tipo de livro contábil, mas ninguém conseguiu decifrá-los.

"Os espanhóis ficaram desnorteados com eles," disse Gary Urton, da Universidade Harvard, em Massachusetts, que trabalhou no estudo. "Quatrocentos anos depois, não estamos muito melhor que eles."

Há todo tipo de teoria — que eles fossem um tipo de código binário, que fossem apenas coleções de números ou que eles tenham sido uma das formas mais primitivas de escrita humana.

Urton e Carrie Brezine recorreram à ajuda dos computadores.

"Recentemente fizemos uma análise por computador de 21 quipos do centro administrativo inca de Puruchuco, na costa central do Peru," escreveram eles no relato da pesquisa, publicado na revista Science.

"Os resultados indicam que esse arquivo quipo exemplifica o modo como os dados do censo e dos impostos eram sintetizados, manipulados e transferidos entre vários níves contábeis no sistema administrativo inca."

E eles encontraram o que parece ser uma palavra — o nome de um palácio específico.

"Nossa hipótese é de que a disposição de três nós em oito no início desses quipos represente um identificador de local, ou topônimo, Puruchuco. Nossa sugestão é que qualquer quipo que circulasse dentro do sistema administrativo estatal com a disposição inicial de três nós em oito seria imediatamente reconhecido pelos administradores incas como uma conta pertencente ao palácio de Puruchuco."

CINCO PAÍSES

No mês passado, arqueólogos afirmaram ter encontrado um quipo no local onde ficava a cidade mais antiga das Américas, Caral. Eles disseram que a descoberta sustenta a idéia de que os cordões cheios de nós eram trabalhos escritos complexos que estiveram em uso por 4.500 anos.

Agora Urton e Brezine dizem que suas descobertas se encaixam no que se sabe sobre a sociedade hierárquica inca e seu vasto império, que se estendia ao longo do que hoje são Peru, Equador, Chile e partes da Argentina e da Bolívia.

"Esse trabalho nos dá uma idéia de como essas informações complexas eram compiladas, manipuladas, compartilhadas e arquivadas na hierarquia inca," disse Urton num comunicado. "Instruções das autoridades de maior escalão para as de mais baixo escalão circulariam, por meio dos quipos, hierarquia abaixo."

"Na direção contrária, contadores locais enviavam informações sobre tarefas cumpridas para os escalões mais altos."

Urton já havia afirmado que os quipos poderiam ter sido usados como calendários. Alguns quipos encontrados em túmulos têm 730 cordões agrupados em 24 conjuntos — o equivalente ao número de dias e meses em dois anos.

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