Corporativa

Adequação à legislação mundial mudará balanços e resultados

Renato Carvalho
Algumas mudanças na elaboração dos demonstrativos financeiros dos bancos acabarão impactando no resultado final das instituições financeiras. As provisões para crédito de liquidação duvidosa, os dividendos distribuídos aos acionistas e até mesmo o patrimônio líquido devem sofrer alterações a partir do momento em que estas novas regras entrarem em vigor. O Banco Central determinou que um diagnóstico deve ser feito até o dia 31 de dezembro deste ano e o cronograma prevê que até 2010 as instituições financeiras devem publicar seus balanços de acordo com as novas regras contábeis em acordo com os padrões da International Accounting Standard Board (IASB) e também da International Federation of Accountants (IFAC).
Projeções feitas por Gregory Gobetti, sócio da Ernst & Young Auditores Independentes , mostram que o lucro por ação dos bancos pode cair até 15% após a entrada em vigor das novas normas. Ele se baseia na experiência européia para traçar este cenário. ?Lá, além da perda dos acionistas, alguns bancos registraram queda de até 12% em seu patrimônio líquido e queda também no lucro?. Ele acredita que o Brasil deve aprender com o histórico europeu. ?Nosso maior desafio é tentar, ao máximo, evitar que estes efeitos aconteçam aqui?.
Na Europa, bancos como o inglês Barclays , o francês Societè Generale e o holandês ABN Amro são exemplos de casos onde a mudança para os padrões internacionais de contabilidade provocaram uma queda no patrimônio líquido no ano da adoção.
?É uma adequação necessária, mas muito complicada. Sinto como se fôssemos vítimas?, afirma o Henri Penchas, vice-presidente sênior da área de controle econômico do banco Itaú .
Algumas mudanças causam mais impacto, como a que diz respeito às provisões para crédito de liquidação duvidosa. No modelo atual, os bancos fazem suas provisões de acordo com o risco futuro de cada operação, e a porcentagem alocada para cada nível de risco é determinada pelo Banco Central. ?A partir da adoção das normas do IASB, o provisionamento deverá ser feito por alguma experiência passada, ou por algum motivo interno concreto?, explica Eliseu Martins, professor titular da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e membro do Comitê de Pronunciamentos Contábeis da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). ?Esta medida pode dar a impressão de cerceamento das provisões, mas é conseqüência do que acontece na Europa, onde o nível de provisionamento é muito maior do que no Brasil?.
Outra mudança diz respeito às fusões e aquisições feitas pelas instituições financeiras. ?Os valores contábeis não poderão ser usados em uma operação de fusão ou aquisição. Ou seja, será lançado no balanço o valor justo da operação, levando em conta os ativos físicos, e os ativos financeiros, como carteira de crédito?, diz Edison Arisa, presidente do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon). Além desta mudança, o ágio deste tipo de operação não poderá ser amortizado com a nova norma. ?É o fim da amortização de ágio?, diz Nelson Carvalho, presidente do Conselho Consultivo do IASB.
Preparação necessária
Um dos grandes desafios dos bancos, além de prepararem seus sistemas operacionais e seus funcionários, será convencer seus acionistas sobre os benefícios trazidos pela convergência com as normas contábeis internacionais. ?Este é um trabalho que deve começar agora, para que tudo fique devidamente esclarecido para os investidores?, afirma Gobetti, da Ernst & Young.
Neste item, a mudança ocorre por conta da natureza do pagamento dos dividendos. ?Este é um problema que até já existe em relação às diferentes normas contábeis existentes. Por exemplo, eu pago meus acionistas pelo resultado individual de cada empresa que faz parte da holding. A partir das novas regras, eu terei que pagar todos os acionistas pelo resultado consolidado do grupo, e é isso que acaba impactando no resultado por ação?, conta Penchas, do banco Itaú.
Outra mudança diz respeito aos resultados de cada segmento dos bancos. ?Com a nova regra, os bancos vão ter de ser bem transparentes quanto ao resultado de cada segmento. Antes, quando algum setor ia mal, o banco o deixava escondido no balanço?, explica Martins.

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