Corporativa

Leis de governança favorecem auditorias

Nelson Niero
Colaborou Carolina Mandl

Uma segunda onda de investimentos impulsionada pelas regras americanas de governança e o aumento dos serviços de consultoria, principalmente de gestão de riscos, estão mantendo as quatro grandes auditorias mundiais em ritmo acelerado no Brasil.
Ernst & Young, Deloitte, KPMG e PricewaterhouseCoopers, todas com crescimento de dois dígitos, chegam a patamares recordes de faturamento, em parte ajudadas por uma crise de confiança depois dos escândalos contábeis nos Estados Unidos em que a credibilidade das próprias auditorias foi colocada à prova – e uma delas, a Arthur Andersen, simplesmente desapareceu.

Mas a reação, que veio na forma de uma legislação mais rígida, a lei Sarbanes-Oxley, de 2002, acabou se tornando um novo nicho de negócios para as auditorias.

Num primeiro momento, a corrida das empresas americanas para se adaptar às exigências da lei teve reflexos no Brasil, já que as subsidiárias tiveram que acompanhar o trabalho das matrizes. Agora, as 34 empresas brasileiras com ações no mercado americano são a bola da vez.

O ponto nevrálgico da Sarbanes-Oxley é o seu artigo 404, que provoca arrepios nos executivos por sua complexidade e alto custo. Em linhas gerais, o 404 obriga a empresa a fazer um mapeamento detalhado de seus controles internos para garantir aos investidores que eles são bons o suficiente para evitar erros nas demonstrações financeiras.

A Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais americano, estabeleceu prazos diferenciados para a adoção da regra. Para as americanas, já está valendo; as não-americanas – cerca de 1,2 mil – têm até o fim deste ano para colocar a casa em ordem.

A função do auditor externo, além da tradicional checagem do balanço, será testar esses controles para emitir sua opinião em um parecer que acompanhará as demonstrações (conhecidas como 20-F) que devem ser entregues à SEC daqui a um ano, em junho de 2007. O preço é salgado: fica facilmente acima de 50% do honorário atual e, segundo os auditores, pode chegar a dobrar.

As grandes firmas de contabilidade ganharam prestando consultoria na identificação e correção de falhas nos controles das companhias. Agora, na segunda etapa, elas ganham como auditores, certificando que esses controles estão funcionando. É claro que elas só podem prestar consultoria em empresas nas quais não atuem como auditores, para não certificar seu próprio trabalho. De qualquer maneira, seja na consultoria ou na auditoria, são as quatro grandes que acabam "dividindo" os honorários.

"Os custos podem subir de 70% a 100%", afirma Luís Carlos Passetti, sócio da área de auditoria da Ernst & Young, cuja receita cresceu 20% no último ano fiscal. Passetti estima um aumento de 40 mil a 50 mil horas trabalhadas (a medida que serve de parâmetro para se cobrar os honorários) com seus oito clientes que estão se adaptando às regras americanas. "Dobramos a carga de treinamento nos últimos dois anos."

A Deloitte, que cresceu 21% no ano encerrado em 31 de maio e projeta um avanço de 19,5% na receita para este ano, também se preparou. "Temos 142 pessoas dentro da organização especializadas em Sarbanes-Oxley", diz Alcides Hellmeister Filho, presidente. Para ele, a mudança do escopo da auditoria justifica o aumento dos honorários. "É preciso revisar em detalhes os processos para atender às exigências da lei."

A previsão é que depois da alta expressiva no primeiro teste dos controles os custos caiam. "No segundo ano, estima-se algo entre 30% e 70% acima dos custos atuais", afirma David Bunce, presidente da KPMG. A menor entre as "big four", a firma aumentou em 78% o quadro de funcionários no ano fiscal encerrado em setembro – enquanto o número de clientes cresceu 10% – e estima um avanço da receita acima de 20% neste ano fiscal.

Uma pesquisa com 238 empresas americanas feita pela Financial Executives International, citada pelo site CFO.com, mostrou que o custo médio de adaptação ao artigo 404 havia caído 16,3% para US$ 3,8 milhões, em 2005 – bem abaixo, no entanto, da queda de 39% prevista por essas companhias no ano anterior.

Mesmo com o custo em queda, nada será como antes, pelo menos quando o assunto for honorários de auditoria. "A certificação terá que ser feita sempre", lembra Henrique Luz, sócio da PwC, cuja receita cresceu 25% no ano encerrado em junho. O desgaste na hora de negociar a conta com o cliente é inevitável, mas Luz acha que há uma mudança de percepção. "No início, a empresas encaravam como custo regulatório, mas agora elas já reconhecem que há um ganho na melhoria dos processos."

Líbano Barroso, vice-presidente da TAM, confirma, com uma certa dose de resignação, essa visão mais otimista: "Já deu para perceber que, com o aumento dos controles internos, é possível ganhar eficiência, reduzindo custos. Isso deve compensar o que gastamos".

A companhia aérea calcula um gasto de US$ 2 milhões até agora para implementar a Sarbanes-Oxley. Daqui para a frente, a expectativa é que o valor se estabilize em US$ 500 mil por ano. "São valores bastante elevados, mas é o preço a pagar para ter acesso ao maior mercado de ações do mundo."

Mas não é só a obrigação legal que vem ajudando as auditorias a crescer no Brasil. Cada vez mais empresas procuram essas firmas em busca de consultoria, e não ficam só no tradicional planejamento tributário.

"Gestão de risco e governança são as palavras de ordem no momento", diz Luz, da PwC, prevendo uma nova onda de investimentos, desta vez de grandes empresas de capital fechado. "Há uma consciência maior das companhias, e não apenas das que têm ações em bolsa", diz Bunce, da KPMG.

Os trabalhos de assessoria em fusões e aquisições e abertura de capital – segmentos que registraram aumentos expressivos – também ajudaram a reforçar o caixa das auditorias.

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