Corporativa

Remuneração variável amplia envolvimento de conselheiros

Na tentativa de instituir maior comprometimento dos conselheiros de administração com as decisões corporativas, muitas empresas de capital aberto passaram a adotar uma política de remuneração variável atrelada ao cumprimento de metas, muitas vezes ligada ao desempenho das ações no mercado.
Para o sócio da Heidrick & Struggles, Dárcio Crespi, apesar da adoção dessa política ainda ser muito recente no Brasil, deve representar uma tendência do mercado, principalmente em função do aumento da abertura de capital das empresas ? 30 só no primeiro semestre ? no Novo Mercado, que determina que o conselho de administração seja composto no mínimo por 20% de conselheiros independentes. ?A remuneração variável já é adotada há muito tempo nos Estado Unidos e representa uma forma de incentivo para envolver os conselheiros com a empresa?. A consultoria realizou a contratação de seis conselheiros no último semestre, média, segundo ele, superior à do ano passado.
De acordo com o sócio da Panelli Motta Cabrera & Associados, Luis Carlos Cabrera, a procura por conselheiros independentes tem aumentado não só entre empresas de capital aberto, mas também em companhias familiares. ?A complexidade da gestão e a necessidade de atender às exigências do mercado têm levado as empresas a procurarem a consultoria de profissionais experientes?, diz Cabrera.
Para ele, os conselheiros passaram a desempenhar um papel importante na educação dos acionistas. A valorização desses profissionais tem se refletido no pagamento de bônus anuais, que podem ser em renda variável ? atrelada ao desempenho dos ativos ou à performance da empresa ? ou participação em ações (stock option). O sócio da consultoria A2Z , Felipe Assunção, afirma que o bônus pode chegar a 30% do salário.
Segundo Cabrera, essa política de remuneração variável começou com as companhias de capital fechado, com o objetivo de atrair executivos de alto nível para seus conselhos. ?Antes o que atraía esse profissional era o contato com grandes executivos, mas com o aumento da demanda a remuneração começou a ter um peso maior nas contratações?, afirma Cabrera.
Profissionais mais valorizados
A remuneração mensal dos conselheiros tem girado em torno de R$ 10 mil a R$ 15 mil mensais ou por reunião, podendo chegar até R$ 20 mil. Entre as instituições que melhor têm remunerado seus conselheiros estão os bancos e empresas de capital aberto com alta complexidade acionária, como a Companhia Vale do Rio Doce, que chegam a pagar o dobro da média do mercado.
As companhias de capital pulverizado também têm remunerado acima da média. ?Como não existe um controlador majoritário, a credibilidade dos conselheiros é fundamental para o desempenho dos negócios das companhias?, afirma Leonardo Viegas, coordenador do Comitê de Capacitação do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
Para ele, empresas que adotam a remuneração baseada no repasse de ações estão estendendo o resgate dos ativos para períodos de longo prazo, como forma de estimular o profissional a cumprir todas as metas.
Para evitar problemas como a falsificação de balanços, como ocorreu com empresas norte-americanas como a Eron e a Worldcom, o IBGC defende a política de pagamento dos conselheiros proporcional aos honorários pagos aos executivos da empresa.
O consultor sênior da Spencer Stuart Consultores Gerenciais, Guileherme Dale, conta que profissionais que já atuaram como executivos em grandes consultorias e têm conhecimento em processos de auditoria têm sido muito valorizados, por conta da necessidade de adequação das empresas à lei Sarbanes-Oxley, e chegam a receber um salário mensal de R$ 20 mil.
A consultoria realizou uma média de dez contratações de conselheiros neste ano, o que chegou a representar um aumento de 100% comparado com a demanda de cinco anos atrás.
?A atuação em conselhos de administração representa uma nova atividade profissional, principalmente para executivos sêniors com longa atuação no mercado?, diz Dale.
Ameaça da independência
A adoção de metas variáveis, na opinião de Dale, pode comprometer a independência dos conselheiros, ao estreitar a relação do profissional com a empresa, atrelando a sua remuneração ao desempenho da companhia.
Da mesma forma a política de doação de ações deve ser analisada com cautela, pois o membro do conselho atua por período temporário, em média de dois a três anos, o que impede as empresas de estabelecerem o resgate no longo prazo. ?Os conselheiros que recebem as ações se tornam membros societários e acabam envolvidos com as decisões da empresa?, afirma Dale. Para ele, a melhor composição do conselho é aquela que agrega membros internos e externos. (DCI – Silvia Rosa)

Print Friendly, PDF & Email
Americanas

Comentário fechado