Corporativa

GRI lança modelo global de balanço social

O principal salão de conferências do Hotel Okura, em Amsterdã, ficou subitamente as escuras ontem por volta do meio-dia. As quase mil pessoas que estavam lá foram surpreendidas por uma voz feminina forte, que tomou conta do espaço com uma canção turca. Foi o início de uma sucessão de falas e cantos de mulheres espalhadas pelo local. Às vezes suaves, às vezes contundentes, elas entoavam diferentes melodias, em diferentes momentos, em idiomas difíceis de serem identificados, num diálogo quase impossível. Aos poucos as canções foram se somando, a cacofonia inicial transformou-se em uma improvável harmonia.
O público, encantado, não conteve os aplausos. Foi quando Ernst Ligteringen, presidente do Global Reporting Initiative (GRI), subiu ao palco para anunciar que considerava oficialmente lançado o G3, um novo modelo para a elaboração de relatórios de sustentabilidade, foco principal do trabalho desenvolvido desde 1997 por essa associação não-governamental. "É sobre isso que estamos falando", disse Ligteringen, que há mais de três anos coordena um esforço para encontrar uma linguagem comum, que permita a comparabilidade, para os relatórios "não-financeiros".
Somente quando deixaram o salão, os participantes do Congresso de Sustentabilidade e Transparência promovido pela GRI, que termina hoje, receberam um CD com o G3, ponto alto da conferencia. O novo modelo, que aprimora as diretrizes lançadas em 2002, utilizadas por cerca de 1 mil empresas, pretende ser mais abrangente e fazer a passagem para uma etapa mais avançada da gestão sustentável em que as companhias além de anunciarem publicamente seus compromissos precisam comunicar tambem os resultados. "É uma linguagem global e uma métrica global para a sustentabilidade", explicou Ligteringen.
Com diretrizes mais simples que a versão anterior, o G3 prevê três diferentes níveis de comprometimento das organizações com a sustentabilidade. Com isso, a ONG espera que pequenas empresas e aquelas que consideram os requisitos anteriores muito difíceis de serem alcançados possam se juntar ao grupo das que publicam balanços sociais de acordo com o modelo – que inclui 69% das companhias listadas no Dow Jones Sustainability Index e 60% das integrantes do ranking S&P 100.
"Com a globalização e com a capitalização dos mercados lidamos hoje com valores intangíveis. Isso exige informação que possibilite uma visão futura", explicou Sir Mark Moody Stuart, presidente do Conselho da Anglo American e integrante do Conselho do GRI. "Os analistas olham para duas coisas: risco e oportunidade. Com certeza eles podem avaliar melhor o risco se olharem para a questão da sustentabilidade."
A demanda pela publicação de relatórios "não-financeiros" é cada vez maior entre os investidores institucionais dos Estados Unidos, segundo Sean Harrigan, ex-presidente do Calpers, fundo de pensão dos funcionários públicos da Califórnia, e membro do Conselho do GRI. O Calpers é um dos dez signatários de uma carta que será enviada essa semana para todos os integrantes do S&P 500 reivindicando o uso do modelo do GRI na publicação de relatórios ambientais. O fundo californiano e o New York City Comptroller’s Office, que também assina a carta, somam ativos de mais de US$ 300 bilhões.
As companhias americanas respondem por menos de 10% do total de empresas que utilizam o modelo do GRI, bastante difundido na Europa. A pressão para que as empresas dos Estados Unidos adotem o G3 tem como uma das principais motivações o fato de o novo modelo incluir um indicador projetado para identificar em quanto os riscos de mudanças climáticas se traduzem em riscos financeiros para determinadas companhias. "Como investidores, consideramos seriamente os riscos que advém do que está se tornando rapidamente um mundo limitado pelo carbono", diz o texto da carta.
A preocupação dos investidores também começa a ecoar junto aos governos e instituições públicas. Ontem, a ministra de Comércio Exterior da Holanda, Karien van Gennip anunciou que a partir de 2010 todas as licitações federais serão limitadas a participação de empresas sustentáveis. A concessão de recursos públicos para investimentos já está vinculada a responsabilidade social corporativa. O governo holandês também criou um ranking para medir o comprometimento das companhias com a gestão sustentável e realiza ainda um trabalho junto as empresas de menor porte para promover a transparência, que inclui diretrizes para atuação nos mercados emergentes.
A jornalista viajou a convite da Petrobras.
Célia Rosemblum, de Amsterdã

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