Corporativa

Deloitte planeja unificar operações para reforçar marca

Carolina Mandl
Na semana passada, a Deloitte reuniu em Buenos Aires sócios e funcionários dos 136 países onde atua em torno do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ao contrário do que se poderia imaginar, na pauta do fórum mundial da firma de auditoria nada havia sobre a disputa eleitoral brasileira. Ali, interessava aos executivos ouvir o que o sociólogo tinha a dizer sobre globalização.
Marisa Cauduro/Valor William Parrett, presidente mundial da Deloitte: "Creio que em dez anos seremos uma única sociedade"
O tema – nem tão inédito assim – tinha uma razão bem particular de ser. A Deloitte está preocupada com o modelo global de atuação que impera entre as auditorias.
Hoje, Deloitte, Ernst & Young, KPMG e PricewaterhouseCoopers operam mundialmente por meio de diversas sociedades independentes unidas por uma marca e um sistema. Mas recentes fusões de escritórios na Europa indicam que esse sistema está caminhando para a constituição de uma única empresa global.
William Parrett, presidente mundial da Deloitte, pensava nisso quando convidou FHC. "Creio que em dez anos a Deloitte se transformará em uma única sociedade", afirmou o executivo em entrevista ao Valor na sexta-feira.
Neste ano, a operação do Reino Unido, por exemplo, já englobou os negócios da unidade suíça. Funcionam agora como uma empresa só.
Em outros locais, os escritórios ainda não se transformaram em uma única sociedade, mas já operam como um conglomerado, dividindo conhecimento e custos nas áreas administrativas. É o que aconteceu na América Latina, onde 11 países formaram o que a Deloitte chama de um "cluster". Brasil e México, por enquanto, ficaram de fora dessa parceria por terem negócios maiores, com condições de se manterem sozinhos.
"Os custos de uma operação de auditoria são muito altos. Por isso temos incentivado principalmente as sociedades menores a se unirem. É uma forma de nos tornarmos mais competitivos", explicou Parrett.
Outros conglomerados foram criados entre os países menores da Ásia, no Caribe, na África e nas regiões central e nórdica da Europa.
A Deloitte não é a única a unificar suas operações. A concorrente KPMG também sinaliza na mesma direção. Suas operações do Reino Unido e da Alemanha se fundiram neste ano.
É uma mudança e tanto para as firmas de auditoria, que vêm sendo criticadas por uma atitude ambígua em relação a suas operações mundiais. As quatro grandes usam a sua presença global como ferramenta de marketing na hora de conquistar o cliente. No entanto, quando surge algum problema envolvendo uma de suas unidades – como um escândalo contábil – elas invariavelmente argumentam que, por operar sob a forma de sociedades locais, a responsabilidade da firma como um todo é restrita.
Ao começar a construir uma empresa global, entretanto, as auditorias querem mostrar aos clientes que eles podem confiar em seus serviços onde quer que seja.
Além disso, com a perspectiva de uma convergência do padrão de contabilidade para um modelo internacional, o IFRS (International Financial Reporting Standards), pode não haver mais sentido em se manter sociedades locais.
"No futuro, o trabalho poderá ser feito em qualquer local", disse Parrett. A expectativa do presidente da Deloitte é que em cinco anos todos os países estejam usando o IFRS.
Mas ainda há questões regulatórias a serem superadas. Em alguns países, como no Brasil, a lei impede que as firmas de auditoria sejam detidas por capital estrangeiro.
Enquanto isso não ocorre, o trabalho da Deloitte se volta para a construção de uma marca global, comparável a nomes da indústria de consumo, como Coca-Cola e Nike. Uma façanha e tanto. Afinal, se quase todo mundo toma refrigerante, uma restrita parcela da população usa serviços de auditoria. Mas que, se alcançada, pode apagar os arranhões que o setor sofreu nos últimos anos.
Com o slogan "Standard of Excellence" (algo como Padrão de Excelência), a Deloitte quer ter sua marca associada a serviços de máxima qualidade. Para isso, a firma determinou algumas metas para os próximos dez anos, que incluem lucratividade, crescimento, inovação e até o aumento do número de mulheres entre seus sócios.
No ano fiscal de 2006, encerrado em maio, a Deloitte faturou US$ 20 milhões, um crescimento de 10% em relação ao ano anterior. De acordo com o relatório da auditoria, todas as regiões foram importantes para o crescimento. O Brasil, por exemplo, só perdeu em lucratividade por sócio no ano passado para os Estados Unidos.
Mas um grande impulso tem vindo da China, onde a receita cresceu 60% no ano passado. O número de funcionários e sócios saltou de 1.500 em 2003 para 5.500 pessoas neste ano. Para dar conta dessa velocidade, a própria Deloitte tem ajudado na formação dos profissionais em parceria com universidades.
Por lá, Parrett disse que a Deloitte também está aprendendo umas boas lições a respeito da globalização. "Por mais que se recomende aos chineses adotar o sistema de desenvolvimento desse ou daquele país, é essencial respeitar as particularidades do país para entendê-lo."

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