Corporativa

Bancas de advocacia reabrem com modelo híbrido de home office

Por Joice Bacelo, Valor — Brasília

Grandes bancas de advocacia entendem que ainda é cedo para retomar as atividades presenciais, apesar de o governo de São Paulo ter permitido a reabertura de escritórios — quatro horas por dia e com limitação de 20% da capacidade. Algumas projetam a volta para julho, só para os funcionários que quiserem, outras não têm ainda nem data prevista.

Há certeza, no entanto, de que as coisas vão mudar. A pandemia deve deixar o home office de legado. Os escritórios maiores projetam um modelo híbrido, em que o funcionário poderá optar por um ou dois dias por semana de trabalho em casa. Bancas menores, por outro lado, estão revendo as suas estruturas.

O J Amaral Advogados Associados, por exemplo, com uma equipe de 12 advogados, vai adotar o “officeless” — modelo em que o funcionário escolhe onde quer trabalhar. Entregou, no fim de abril, a sede de 200 metros quadrados no Itaim Bibi, bairro nobre da capital paulista, porque, segundo João Eduardo Villemor Amaral, fundador e sócio da banca, “não faz mais sentido recompor as amarras físicas”.

“A nossa entrega é o capital intelectual. Eu não preciso de uma estrutura física cara e suntuosa, como são tradicionalmente os escritórios de advocacia, para dar essa entrega ao meu cliente”, diz.

Mas o advogado não quer aderir ao conceito de que o escritório não é necessário. “Em vez de ter 200 metros quadrados, pode ter 30 ou 40. Pode ter uma sala de reuniões bem montada, com toda a estrutura tecnológica. Pode ter quantidade reduzida de posição de trabalho e essas posições podem ser alternadas pelas equipes ao longo da semana. E mais: podem ser múltiplas bases de trabalho, em salas de coworking, por exemplo”, afirma Amaral.

O escritório Mattos Filho tem mais de 600 advogados. É um dos maiores e mais tradicionais do país. Se desfazer da sede, próxima à Avenida Paulista, é algo que passa bem longe dos planos para o pós-pandemia. Mas a política de home office da banca, que existe, comedida, desde 2015, será ampliada.

Antes do novo vírus, os funcionários podiam optar por dois períodos ou um dia inteiro da semana de trabalho em casa. Esse modelo, porém, não era permitido aos profissionais mais jovens.

“O advogado geralmente tem uma visão mais conservadora das coisas. Algumas pessoas tinham certa resistência ao home office. Agora, o que estamos vendo, é um ganho de produtividade importante e mesmo num momento em que as pessoas estão trabalhando de casa e com um monte de outras coisas para resolver”, afirma José Eduardo Queiroz, sócio-diretor do escritório.

Não há ainda uma data prevista para a retomada das atividades presenciais na banca — toda equipe, hoje, está trabalhando de casa. E, segundo Queiroz, por uma razão simples: não há benefício nenhum em fazer uma volta rápida ou acelerada. “Estamos num período muito forte ainda de infecção.”

Tem ainda o fato de que os funcionários precisam conciliar o trabalho com a vida pessoal. Pais de crianças sem aula, por exemplo, não teriam como voltar nem que quisessem, afirma Queiroz.

A reabertura da sede do Mattos Filho, quando ocorrer, será de forma escalonada, com limitação de funcionários, e regras mais duras para o convívio — distanciamento, proibição de transitar entre os andares e uso obrigatório de máscara, por exemplo.

No Pinheiro Neto, banca que também está na lista das maiores do país, já há uma data prevista para a retomada: 1º de julho. Mas só para os funcionários que quiserem voltar. “Do porteiro ao presidente, ninguém é obrigado a ir”, diz Alexandre Bertoldi, sócio-gestor da banca. A retomada, de fato, está prevista para o mês de setembro.

Para receber os funcionários, já a partir do mês que vem, o escritório vem passando por mudanças. São pequenas intervenções para adequar o espaço ao “novo normal”. Placas de acrílico, por exemplo, vão dividir os espaços nos mesões e, inicialmente, mesmo com essas placas, os funcionários terão que respeitar uma distância mínima de três metros.

Uma das vantagens do escritório em São Paulo, diz Bertoldi, é o fato de o prédio, no bairro Jardim Europa, ser exclusivo para funcionários do Pinheiro Neto, o que deve facilitar a retomada das atividades presenciais. Há, porém, recomendação para que as reuniões com os clientes permaneçam ocorrendo de forma virtual nesse período de transição.

O Pinheiro Neto não tinha política de home office antes da pandemia. “Agora seremos bem mais flexíveis”, diz o sócio-gestor da banca. Ele afirma que serão permitidos, em caráter permanente, um ou dois dias da semana. “Tem pessoas que não funcionam tão bem no home office, mas tem pessoas que se dão muito bem.”

A situação se repete no Demarest. A banca decidiu implementar o home office no pós-pandemia. “Estamos fazendo uma pesquisa para saber como as pessoas querem que funcione. Percebemos nesse período em que todo mundo está em casa que a produtividade é grande”, diz Carlos Antonaglia, diretor de RH do Demarest.

Ele pondera, por outro lado, que em casa corre-se o risco de trabalhar “muito mais”. Por esse motivo, afirma, o escritório está lançando um programa de saúde mental. Um instrutor especializado em trabalhar equilíbrio e felicidade no meio jurídico foi contratado para um projeto de 12 semanas.

O Demarest pretende retomar as atividades no escritório, de forma presencial, 15 dias depois que o Estado permitir a abertura total das bancas — o que ainda não há data prevista para ocorrer.

A retomada ocorrerá em três fases. Primeiro somente sócios e diretores, depois os profissionais que não são do grupo de risco e nem convivem com alguém que seja — ainda assim respeitando a limitação de 30% do total da equipe — e por último os demais. A volta do terceiro grupo ao escritório, no entanto, só será permitida quando existir vacina contra a covid-19.

Fonte: Bancas de advocacia reabrem com modelo híbrido de home office | Legislação | Valor Econômico

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