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Como foi a escravização de negros por escravos alforriados, segundo o escritor Laurentino Gomes

Corrupção, nepotismo, tráfico de influência, contrabando e sonegação de impostos já eram comuns no Brasil colonial e escravista, segundo o livro de Laurentino Gomes

Por Luís Antônio Giron — Para o Valor, de São Paulo

“Na história da escravidão, existem os olhares negros, os olhares brancos e os olhares atentos. Eu me esforço para ser parte deste terceiro grupo”, diz Laurentino Gomes — Foto: Ana Branco/Agência O Globo

O século XVIII, conhecido como o do Iluminismo, também assinalou o apogeu da escravidão. Aos ideais de humanismo, democracia e do livre pensar, correspondeu o tráfico de milhões de escravos da África para as Américas, sobretudo para o Brasil. Eis o cenário do segundo volume da trilogia de Laurentino Gomes sobre a escravidão.

É um cenário em que o brilho dos metais e das pedras preciosas emergiu com marcas pútridas de sangue. “Escravidão – da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de dom João ao Brasil” (Globo Livros, 512 págs., R$ 59,90) demonstra que o fio condutor da história do Brasil e sua chave explicativa são constituídos pela escravidão. “Neste início de século XXI, temos uma sociedade rica do ponto de vista cultural, diversificada e multifacetada, mas também marcada por grande desigualdade social e manifestações diárias de preconceito racial. Isso, no meu entender, é ainda herança da escravidão”, diz Laurentino ao Valor.

“As raízes do Brasil de hoje estão solidamente plantadas em nosso passado”, acrescenta. “Isso inclui a corrupção, o nepotismo e o tráfico de influência, o contrabando e a sonegação de impostos, o ‘toma-lá-dá-cá’ que tanto caracteriza as relações de promiscuidade entre os interesses públicos e privados. Tudo isso era muito forte já na época do Brasil colonial e escravista.”

O primeiro volume de sua trilogia foi lançado em 2019 e se centrava no início do tráfico negreiro. O foco era a África do litoral atlântico, onde se ergueram fortificações, portos e feitorias para exploração de escravos para os canaviais do Norte e Nordeste.

O terceiro volume está agendado para ser lançado em 2022, ano do bicentenário da Independência, e abarcará o movimento abolicionista e o fim oficial da escravidão com a Lei Áurea de 13 de maio de 1888. Obviamente trata-se de um epílogo oficial, porque as populações “libertas” foram atiradas à própria sorte, e, para sobreviver, trataram de se organizar em favelas, vilas e quilombos que se mantêm até hoje.

Laurentino sabe que, como branco, nascido no Paraná, carece do “lugar de fala” de um negro descendente de escravos. Mas argumenta: “Na história da escravidão, existem os olhares negros, os olhares brancos e os olhares atentos. Eu me esforço para ser parte deste terceiro grupo”.

A pesquisa para este segundo volume já estava praticamente concluída antes da pandemia. “Faltava apenas organizar todo o vasto material recolhido, depois escrever e editar o livro. Por essa razão, curiosamente, a pandemia me ajudou a concluir o trabalho rapidamente”, diz Laurentino.

O livro acompanha o ápice da riqueza, da exploração dos escravos e da rapinagem e contrabando dos minerais. Também descreve a emergência da escravidão urbana e da liberação parcial de escravos, além da miscigenação sexual e cultural.

As novas práticas originaram a acomodação e normalização de hábitos, a mais notável delas a escravização de negros por escravos alforriados, que se tornaram senhores de escravos. “Eu me surpreendi muito ao constatar o quanto a escravidão se tornara corriqueira e banal no Brasil do século XVIII”, diz Laurentino sobre os achados da pesquisa para este livro.

O modo de vida aparentemente ameno e idílico, com a convivência entre sinhás e mucamas e o acasalamento (não oficial) entre sinhozinhos e escravas, incentivou o sociólogo Gilberto Freyre, pertencente à oligarquia escravagista pernambucana, a formular a falsa teoria da “democracia racial”, que diferenciaria o Brasil do restante do mundo das chibatadas e do pelourinho. Mas também ajudou a propagar a falsa tese contrária, segundo a qual os escravos eram guerrilheiros, lutando contra a opressão dos senhores.

Os 31 capítulos minuciosamente documentados e ilustrados por Laurentino comprovam que a situação não era bem assim. Como se não bastasse, tais versões originaram discussões ideológicas distorcidas. Como explicar que os escravos escravizassem sua gente tão logo libertados, mantendo assim o sistema de exploração? “A escravidão era um fato da vida aceito, praticamente sem questionamentos, por brancos, negros, livres ou cativos”, diz Laurentino.

Nesse tema, o caso célebre foi a proprietária de terras e escravos negra Xica da Silva. Amante do fidalgo João Fernandes, foi alforriada e montou uma corte no Arraial do Tijuco, atual Diamantina, em Minas Gerais. Em sua sede-fazenda, ela dava festas faustosas, onde todos os convivas, inclusive ela própria, trajavam-se como cortesãos – em uma cenografia de fazer inveja à série “Bridgerton”, da Netflix, só que real.

A adaptação e a negociação faziam parte da rotina da vida econômica. Laurentino menciona novas pesquisas, que “têm levado a um entendimento mais complexo e diversificado do escravismo, marcado por nuanças antes ignoradas”. Nelas, os cativos se envolviam em processos contínuos e sutis de negociação e barganha, sempre testando os limites do sistema escravista em busca de ampliar seus espaços e oportunidades. Segundo a nova interpretação, os escravos aparecem como agentes de seu destino, negociando espaços dentro da sociedade escravista.

“Pequenas faltas, fugas rápidas, corpo mole no trabalho, malfeito ou inacabado, fingir não dominar a língua ou as ordens, eram todas formas de resistência que não necessariamente incluíam o enfrentamento direto”, diz. “Os escravos lutavam por coisas concretas, como o direito de constituir e manter famílias, cultivar suas próprias hortas e pomares e vender seus produtos nas feiras livres, dançar ao som do batuque nas horas de folga e praticar seus cultos religiosos.”

O valioso negócio da mercadoria humana rendeu riqueza que fortaleceu as monarquias europeias, sobretudo as de Portugal e Espanha. No Brasil, o fim do século XVII assistiu à decadência das economias da Holanda e de Portugal, com a queda do ciclo da cana-de-açúcar. Como os portugueses haviam mapeado desde o descobrimento imensas jazidas de metais preciosos que mantinham interditadas, passaram a incentivar a sua exploração e divulgaram a descoberta dos tesouros ocultos. Avançar sobre as minas de ouro e diamante de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás talvez fosse a única forma de evitar a derrocada das coroas absolutistas.

Com um território escassamente povoado, com uma minoria branca portuguesa, foi necessário traficar mão de obra escrava em grande quantidade. O Brasil assim se converteu no maior campo de escravos do mundo. Entre 1700 e 1800, cerca de 2 milhões de africanos foram embarcados à força e levados a diversos lugares, principalmente ao Brasil. Em vários locais, a carne humana era leiloada, marcada e conduzida às fazendas de tabaco e minas que pareciam inesgotáveis, mas seriam exauridas em menos de 50 anos. O esplendor conquistado foi comparável à miséria gerada.

Fonte: Como foi a escravização de negros por escravos alforriados, segundo o escritor Laurentino Gomes | Eu & | Valor Econômico

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